Espiritualidade Concreta VS. Abstrata

“O que vais fazer daqui a um mês? Planeias arranjar emprego entretanto? Como vais pagar a renda da casa?” perguntei ao meu pai, um mês antes de ele ser despejado.

“Aquele que não quer nada é aquele que tem tudo,” disse ele, citando o Tao Te Ching.

Ele sempre se identificou com o espiritualismo. Cartas Tarot, símbolos de vikings, estátuas de deuses africanos, tapetes de astrologia, cristais, pedras, colares, insígnias, chakras, ele sempre se identificou com essas coisas. Reencarnação, contacto com os mortos, feitiços brancos, feitiços negros, carma, alienígenas, espíritos, demónios, ele sempre acreditou nessas coisas.

É isso ao que chamo de espiritualidade concreta. A ideia que existem objetos mágicos que têm efeito nas nossas vidas. Coisas que têm poderes ocultos. A ideia que existem regras mágicas por detrás do mundo material. Não é apenas uma questão de “mindfulness”, ou “lei da atração”, ou “pensamento positivo”. É a crença que existe uma dimensão espiritual que nos afeta, de um modo muito literal, no dia a dia.

Sempre achei isso tudo ridículo. No entanto, sempre senti uma vaga atração por New Age. Conceitos abstratos, como “vibrações”, “energia feminina”, “energia masculina”, “alma”, “noite sombria”, para mim isto não são apenas termos “woo”. A minha intuição diz-me que estes termos fazem sentido, que têm alguma utilidade prática. É isto ao que me refiro quando falo de espiritualidade abstrata. Estas coisas só existem na minha cabeça. Uso-as como metáforas úteis, como conceitos que comunicam ideias não científicas.

O conceito de propósito é algo espiritual. Quando fazemos algo que parece ser superior a nós próprios, sabe bem. Dá-nos uma satisfação interna enorme. É uma sensação rara. Há quem considere estas coisas “chamamentos”. Não acredito que exista nada de sobrenatural aqui. Diria que isto é apenas psicologia, coisas que mexem com a nossa identidade e valores.

A maior ironia aqui é que de um ponto de vista superficial, as pessoas acham que não sou nada espiritual. Gozo com as pessoas que acreditam em espíritos e fantasmas. Gozo com as pessoas que acreditam em alienígenas, e cristais mágicos, e tarot, e isso tudo. Eu tenho a aparência do ateu materialista, e “cético” (no mau sentido). Na verdade, identifico-me como bastante espiritual. Acredito na bondade, na justiça, no bem superior. Sei que existe uma explicação científica para isto, que isto são apenas mecanismos da evolução do ser humano, e que estas coisas não passam de químicos no meu cérebro. Mas ainda assim, acredito nestas coisas. Acredito em “almas”. Não no sentido literal, no sentido que “existem almas dentro de nós”. Mas no sentido em que a personalidade de uma pessoa, a sua história de vida, a sua autoperceção, o modo como se exprimem neste mundo, tudo isso em conjunto constitui uma alma. Acredito no poder da paz, da tolerância, da maturidade, da cooperação. Para mim, isto são coisas espirituais.

E a outra ironia é que o meu pai, apesar do modo como se apresenta, não é espiritual. Ele é neurótico, mimado, egocêntrico. Ele tem motivações muito mesquinhas. Uma vez, ele pediu-me ajuda para hackear a conta de Facebook da namorada. Eu disse-lhe a gozar “Sim, imagino uma pessoa evoluída como o Sadhguru a pedir-me isso também.” Ele revirou os olhos.

A espiritualidade não deve ser usada como uma capa. Não deve ser usada como desculpa para não pensar no dia de amanhã. Isso é algo que sempre me incomodou na atitude do meu pai. Ele disse-me várias vezes “Eu não sou materialista, eu valorizo mais o mundo espiritual.”

É esse o problema de acreditar na espiritualidade concreta. Cria-se a dicotomia “mundo material” (superficial, falso, ilusório), e “mundo espiritual” (importante, interior, intangível, o único mundo relevante). E isso dá-nos desculpas para sermos irresponsáveis no mundo material.

“Eu não ligo a dinheiro, eu sou espiritual.”

Isso é apenas uma forma da pessoa justificar a sua péssima situação na vida. É racionalizar as nossas más decisões.

Não existe um “mundo espiritual”. Apenas existe o mundo material. Isto aqui, o trabalho, o exercício físico, a saúde, lavar a loiça, coisas boas, coisas chatas, coisas sensoriais, isto é o mundo material, e é o mundo espiritual também. Não existe separação. Trabalhar é chato, mas faz parte da experiência espiritual.

E é este o problema que tenho com a espiritualidade concreta. Ela distrai as pessoas, envia-as em más direções. Para não falar que 90% da espiritualidade concreta é produzida por vigaristas, que querem vender cristais, tapetes, pedras, cartas, etc. Isto são apenas brinquedos.

É possível que ALGUMA destas coisas que critiquei seja real? É possível. E o problema não é esse. Eu não estou interessado em estudar e refutar a astrologia. Estou interessado em criticar a mentalidade por detrás disso.

“O que é que os planetas dizem? Devo casar-me ou não?”

“Não vou trabalhar. Trabalhar é algo material, fútil. Não me identifico. Vou pintar quadros; satisfaz mais a minha ‘alma’.”

“Estou nesta situação má por causa de carma acumulado na minha vida passada.”

“O meu destino é viver aqui. O meu destino não é alcançar nada de grande. O meu propósito é viver o presente, não no futuro.”

“Aquela pessoa está a sofrer na vida porque tem os chakras desalinhados.”

Isto. Esta visão do mundo, isto é absurdo. É superstição. São crenças limitantes, e erradas, e convenientes para as pessoas que cometem erros e não os admitem. Não é o cristal mágico que causa problemas – o cristal literalmente não faz nada – mas sim a crença no cristal que impede reflexão.